Ex-ministro aponta desequilíbrio entre o número de empresas e templos religiosos como um dos factores do desemprego juvenil e da fraca arrecadação fiscal
O antigo ministro da Economia e Finanças, Adriano Maleiane, alertou recentemente para o que considera ser uma das principais fragilidades estruturais da economia moçambicana: a escassez de empresários e a multiplicação excessiva de igrejas no país.
Segundo o governante, o número de instituições religiosas já ultrapassa o de empresas formalmente registadas, o que representa um obstáculo à geração de emprego e à dinamização da economia nacional.Maleiane lamenta que, num contexto em que o desemprego juvenil atinge níveis preocupantes, o país continue a assistir à proliferação de igrejas em detrimento de empreendimentos produtivos. “Temos mais igrejas do que empresas. E as igrejas, sendo entidades sem fins lucrativos, não contribuem directamente para os cofres do Estado através de impostos. Isso cria um desequilíbrio entre o sector produtivo e o religioso, e fragiliza a nossa base fiscal”, afirmou.
O ex-ministro defende que é urgente investir na formação de jovens empreendedores e na criação de condições favoráveis para o surgimento de pequenas e médias empresas. “Precisamos de cidadãos com capacidade de transformar ideias em negócios sustentáveis. Enquanto o sonho for apenas abrir uma igreja, o desemprego e a pobreza continuarão a ser os nossos maiores desafios”, sublinhou.
A preocupação de Maleiane é partilhada por Luísa Diogo, antiga primeira-ministra e também ex-ministra das Finanças, que apela ao reforço do diálogo público-privado como via para o fortalecimento da economia nacional. “O Estado deve trabalhar lado a lado com o sector privado, criando incentivos que estimulem o investimento e o alargamento da base tributária. Só assim poderemos garantir uma economia sólida e inclusiva”, destacou.
Analistas económicos ouvidos por O País consideram que o fenómeno da proliferação de igrejas está ligado à ausência de oportunidades de emprego e à fraca educação financeira da população. Muitas pessoas recorrem à abertura de templos como forma de sobrevivência, num contexto em que o ambiente de negócios continua a ser hostil e burocrático.
Com o desemprego juvenil a afectar cerca de metade da população economicamente activa, especialistas defendem que o Governo deve adoptar políticas mais robustas de promoção do empreendedorismo, incentivar o investimento nacional e estrangeiro, e rever o enquadramento legal das instituições religiosas, de modo a garantir maior equilíbrio entre fé e desenvolvimento económico.
Enquanto isso, nas ruas e nos bairros das principais cidades, continua a ser mais fácil encontrar uma igreja do que uma fábrica ou uma empresa em funcionamento — um retrato preocupante de um país com enorme potencial, mas ainda à procura do seu verdadeiro motor de crescimento.
