CABO DELGADO: ELEFANTES INTENSIFICAM ATAQUES E AMEAÇAM PRODUÇÃO AGRÍCOLA EM QUISSANGA


 Comunidades que regressaram ao distrito de Quissanga, na província de Cabo Delgado, após anos deslocadas devido ao terrorismo, enfrentam agora um novo e devastador obstáculo na reconstrução das suas vidas: a invasão crescente de elefantes nas suas áreas de cultivo.

​O cenário descrito por líderes locais e agricultores é de desespero. Depois de fugirem da violência armada que assolou o distrito, milhares de famílias voltaram às suas terras com a esperança de retomar a produção agrícola de subsistência, a principal fonte de rendimento e alimento na região. No entanto, bandos de elefantes estão a destruir sistematicamente as "machambas" (campos de cultivo), devorando culturas de milho, mapira e mandioca, mesmo antes de estarem prontas para a colheita.

​Novo Inimigo da Reconstrução

​Para muitas famílias que perderam tudo durante o conflito armado, a agricultura representava o primeiro passo para a estabilidade. A destruição das machambas não significa apenas a perda de uma colheita; significa a perda total da segurança alimentar para os meses seguintes, num distrito que já enfrenta níveis preocupantes de desnutrição.

​"Voltámos porque pensávamos que a paz estava garantida, mas agora temos outro inimigo," relatou um agricultor de uma comunidade afetada, que preferiu não ser identificado. "Os elefantes chegam à noite em grandes grupos. O trabalho de meses é destruído em poucas horas. Não temos comida para as nossas crianças, e não sabemos o que fazer. Estamos a ser empurrados para a fome novamente."

​Insegurança e Medo Constantemente Presentes

Além da devastação económica, a presença dos paquidermes nas proximidades das povoações aumentou a insegurança. Há relatos de agricultores que foram atacados ao tentarem afugentar os animais das suas terras com métodos tradicionais e ineficazes, como bater em latas ou acender fogueiras. O medo de circular pelos caminhos da floresta para aceder às machambas tornou-se constante, limitando ainda mais a actividade produtiva.

​A intensificação do conflito homem-fauna selvagem em Quissanga é um fenómeno complexo, que pode estar relacionado com as alterações climáticas que afectam as rotas migratórias e a disponibilidade de água e comida nos habitats naturais dos animais, bem como com a própria dinâmica da guerra, que pode ter alterado os padrões de movimento da fauna na região.

​Falta de Resposta e Apelo à Ajuda

​As comunidades locais sentem-se desamparadas e queixam-se da falta de uma intervenção eficaz por parte das autoridades governamentais e das entidades de conservação. Embora o problema seja conhecido, as medidas de dissuasão e as alternativas de subsistência ainda não chegaram a Quissanga de forma significativa.

​As lideranças comunitárias apelam urgentemente à administração do distrito e ao governo provincial para a implementação de medidas como a colocação de equipas de fiscalização da fauna selvagem e o fornecimento de apoio em métodos mais eficazes de mitigação, como cercas eléctricas ou de pimenta. Sem uma acção rápida e concertada, o regresso e a reconstrução de Quissanga correm o risco de falhar, não devido às armas do terrorismo, mas sim ao impacto devastador da fauna bravia sobre a frágil subsistência da população.

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