Nos termos da Lei n.º 20/2020, de 31 de Dezembro (Lei do Banco de Moçambique), o Governador do Banco de Moçambique é a mais alta autoridade da instituição monetária central do país, responsável por dirigir, coordenar e representar o Banco Central no exercício das suas atribuições legais. Compete fundamentalmente ao Governador, em articulação com o Conselho de Administração e o Comité de Política Monetária (CPMO), formular e executar a política monetária e cambial, regular e supervisionar o sistema financeiro, gerir as reservas externas do Estado e assegurar a estabilidade do valor da moeda nacional, o Metical. Dada a magnitude destas atribuições, as decisões tomadas a partir da cadeira do Governador impactam directamente as taxas de juro, o nível geral de preços, a disponibilidade de crédito e, em última análise, a capacidade de consumo e o bem-estar económico de todas as famílias moçambicanas.
Há um provérbio ancestral que recorda que os homens passam, mas a marca da sua passagem permanece gravada na memória colectiva. Na gestão pública e em particular no comando das finanças e da política monetária de um país, a avaliação de uma liderança é frequentemente feita pela forma como a população sente o impacto directo das decisões no seu bolso e na sua mesa.
Ao analisar as trajectórias dos dois últimos Governadores do Banco de Moçambique, Ernesto Gove e Rogério Zandamela, confrontamo-nos com duas épocas distintas, dois estilos de gestão e, sobretudo, duas realidades macroeconómicas incomparáveis.
Para o cidadão comum, a era de Ernesto Gove é muitas vezes recordada com nostalgia. Tratava-se de um período em que a moeda nacional parecia ostentar outro vigor. Com notas de menor valor facial, a população conseguia garantir o cesto básico, o mercado informal pulsava e a percepção de custo de vida mantinha-se em níveis suportáveis.
O câmbio mantinha-se estável e o dinamismo económico trazia uma sensação de folga financeira. Contudo, a análise histórica e financeira exige olhar para além da superfície. Foi precisamente no encerramento dessa etapa que se gestaram as dívidas não declaradas as chamadas "dívidas ocultas", evento que viria a arruinar a reputação financeira da nação, paralisar indústrias emblemáticas e desencadear uma crise sem precedentes.
É nesse cenário de autêntica turbulência que surge Rogério Zandamela. Assumindo a liderança do Banco Central sob o impacto da suspensão do apoio directo ao Orçamento do Estado por parte de parceiros internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, a sua gestão foi marcada por um exercício rigoroso de contenção de danos. Zandamela enfrentou a saída de grandes investidores estratégicos, como a VALE em Moatize, a desvalorização acentuada do Metical que viu a cotação do dólar disparar da fasquia dos 32 aos 60-65 Meticais, e a consequente subida drástica do preço dos bens essenciais.
Para manter a estabilidade macroeconómica e impedir a espiral inflacionária, o Banco de Moçambique adoptou medidas duras e impopulares: restrições no uso de cartões de débito e crédito no estrangeiro, aumento das taxas de juro de referência e um aperto monetário que reduziu a liquidez no mercado. Se, por um lado, estas acções conseguiram travar a derrocada total do sistema financeiro e evitar a hiperinflação, por outro lado, sufocaram o poder de compra da família moçambicana.
Hoje, o cidadão sente a perda de peso da moeda: os 1000 Meticais já não garantem o sustento diário, o endividamento familiar através do crédito bancário ou dos "xitiques" aumentou e a perceção do custo de vida é de um aperto sufocante.
Adicionalmente, o contraste entre os elevados salários praticados na alta administração da autoridade monetária e a realidade salarial dos funcionários públicos como os professores e profissionais de saúde alimenta o debate sobre a justiça social e a sensibilidade das elites dirigentes perante a pobreza da maioria.
Em suma, a comparação entre Ernesto Gove e Rogério Zandamela é o reflexo de duas fases da história económica moçambicana: um período de ilusória bonança que culminou numa crise estrutural profunda, seguido por um período de rigor técnico inflexível que salvou o barco do naufrágio, mas ao preço do sacrifício do poder de compra da população. O verdadeiro legado de uma liderança no Banco Central não se mede apenas pela solidez das reservas internacionais ou pelo equilíbrio das taxas, mas pela capacidade de harmonizar a estabilidade financeira com a dignidade de vida do povo que serve.




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