Ernesto Gove e Rogério Zandamela: A Economia Moçambicana entre a Memória do Poder de Compra e a Gestão de Crises Subterrâneas


Artigo de Opinião


O Governador do Banco de Moçambique é a principal autoridade executiva do banco central e tem a responsabilidade de dirigir a instituição, assegurar a execução das deliberações dos seus órgãos de gestão e conduzir a política monetária de acordo com o quadro legal em vigor. Entre as suas atribuições destacam-se a preservação da estabilidade de preços, a promoção da estabilidade do sistema financeiro, a emissão da moeda nacional, a gestão das reservas internacionais, a supervisão das instituições financeiras e a representação do Banco de Moçambique perante entidades nacionais e internacionais.


Embora não determine, por si só, o rumo da economia, as suas decisões sobre taxas de juro, liquidez, política cambial e regulação bancária influenciam diretamente o crédito, a inflação, o valor do metical, o investimento, o emprego e, consequentemente, o custo de vida dos moçambicanos.


Há um provérbio ancestral que ensina que os homens passam, mas as suas obras permanecem gravadas na memória coletiva. Na gestão pública, poucos cargos são tão determinantes para a vida económica de um país como o de Governador do Banco de Moçambique. As suas decisões nem sempre são populares, mas acabam por influenciar aquilo que as famílias sentem diariamente quando entram num mercado, abastecem o carro, pagam propinas ou tentam preservar o valor do seu salário.


Ao comparar os mandatos de Ernesto Gove e Rogério Zandamela, muitos moçambicanos estabelecem um contraste entre duas épocas distintas. Para uma parte da população, o período liderado por Ernesto Gove é recordado como um tempo em que o metical possuía maior poder de compra. Com 100 meticais era possível adquirir produtos essenciais, os preços pareciam relativamente estáveis e o câmbio transmitia maior confiança aos agentes económicos. Era uma fase em que o dinheiro circulava com maior facilidade e o custo de vida era percebido como mais suportável.


Contudo, uma análise mais profunda demonstra que a realidade era mais complexa. Nos últimos anos desse período consolidaram-se problemas estruturais que mais tarde vieram a revelar-se devastadores para a economia nacional. A descoberta das dívidas não declaradas provocou uma das maiores crises financeiras da história de Moçambique, deteriorando a confiança dos investidores, suspendendo o apoio direto dos parceiros internacionais ao Orçamento do Estado e comprometendo seriamente a credibilidade financeira do país.


Foi precisamente neste contexto que Rogério Zandamela assumiu a liderança do Banco de Moçambique. Encontrou uma economia sob forte pressão, marcada pela perda de confiança externa, pela redução do investimento, pela saída de algumas grandes empresas do setor mineiro, pela diminuição do financiamento internacional e, mais tarde, pelos impactos da pandemia da COVID-19, da insegurança em Cabo Delgado e das perturbações provocadas pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia.


Perante esse cenário, o Banco de Moçambique adotou uma política monetária restritiva. O aumento das taxas de juro de referência, o reforço das medidas prudenciais sobre o sistema financeiro e diversas restrições cambiais procuravam evitar uma desvalorização ainda maior do metical e controlar a inflação. Foram decisões tecnicamente justificadas por muitos economistas, mas que tiveram custos sociais relevantes.


Na prática, o cidadão comum passou a sentir um agravamento do custo de vida. O preço dos alimentos, dos combustíveis e de outros bens essenciais aumentou significativamente. O salário perdeu capacidade de compra. Aquilo que antes era adquirido com algumas centenas de meticais passou a exigir valores muito superiores. Muitas famílias recorreram ao crédito bancário, aos xitiques ou ao apoio de familiares para conseguirem equilibrar os seus orçamentos.


É precisamente aqui que nasce o debate público. Há quem considere que Ernesto Gove deixou um legado de estabilidade económica e maior poder de compra. Outros sustentam que parte dessa estabilidade escondia desequilíbrios que mais tarde vieram a manifestar-se com enorme gravidade. Da mesma forma, existem cidadãos que responsabilizam Rogério Zandamela pelo agravamento do custo de vida, enquanto outros defendem que a sua missão consistiu essencialmente em evitar o colapso do sistema financeiro num dos momentos mais difíceis da economia moçambicana.


Também surgem críticas relacionadas com a diferença entre as remunerações dos gestores das instituições públicas e os salários da maioria dos trabalhadores do Estado. Para muitos cidadãos, essa disparidade alimenta um sentimento de injustiça social, sobretudo quando professores, profissionais de saúde e outros funcionários públicos enfrentam dificuldades para satisfazer necessidades básicas. Trata-se de um debate legítimo numa sociedade que procura conciliar estabilidade macroeconómica com inclusão social.

A comparação entre os dois governadores deve, por isso, ser feita com prudência. Um exerceu funções num contexto económico substancialmente diferente do outro. As circunstâncias nacionais e internacionais condicionaram as margens de decisão de ambos. Julgar apenas pelos preços dos produtos ou pela cotação do dólar pode não refletir toda a complexidade da política monetária, mas também seria um erro ignorar que o principal indicador utilizado pelo cidadão comum continua a ser o poder de compra do seu salário.


No final, o verdadeiro legado de qualquer Governador do Banco de Moçambique será sempre medido por dois critérios que devem caminhar lado a lado: a capacidade de preservar a estabilidade financeira do país e a capacidade de contribuir para que essa estabilidade se traduza em melhores condições de vida para os cidadãos. Afinal, reservas internacionais sólidas, inflação controlada e um sistema bancário estável só cumprem plenamente a sua missão quando ajudam as famílias a viver com maior dignidade.


A História continuará a avaliar Ernesto Gove e Rogério Zandamela. Uns recordarão a estabilidade de um período; outros destacarão a gestão de uma crise sem precedentes. Mas há uma verdade que dificilmente será contestada: os cargos são passageiros, enquanto as consequências das decisões tomadas permanecem na memória coletiva de um povo.

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