As divergências internas na Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) voltaram a ganhar intensidade, com o chefe nacional de Mobilização do partido, Geraldo Carvalho, e o antigo deputado António Muchanga a trocarem acusações públicas sobre a condução da organização e o futuro da sua liderança.
O novo episódio ocorre numa altura em que sectores da RENAMO contestam abertamente a liderança de Ossufo Momade e defendem mudanças no funcionamento do partido, incluindo a realização de um congresso extraordinário.
As declarações mais recentes de Carvalho surgiram em reacção às críticas de Muchanga à actual direcção da RENAMO. Segundo o jornal O País, o chefe nacional de Mobilização acusou Muchanga de contribuir para a destruição da organização e de actuar em benefício de interesses que, na sua interpretação, favorecem a FRELIMO.
Carvalho questionou ainda a legitimidade de Muchanga para determinar quem deve dirigir a RENAMO, defendendo que continuará a trabalhar junto das bases do partido, incluindo nas províncias da Zambézia e Manica.
Muchanga contesta liderança de Ossufo Momade
António Muchanga tem assumido uma posição crítica em relação à actual liderança da RENAMO. O antigo deputado tem defendido mudanças na condução do partido e exigido a convocação de um congresso extraordinário.
Em resposta às declarações de Carvalho, Muchanga desvalorizou o chefe nacional de Mobilização, classificando-o publicamente como “insignificante” e “irrelevante”, segundo relatos publicados pela imprensa moçambicana.
Muchanga sustenta, por outro lado, que a sua intervenção não procura defender interesses individuais, mas aquilo que considera ser o interesse do povo e o futuro da própria RENAMO. Também responsabiliza Ossufo Momade por parte dos problemas que, na sua avaliação, afectam actualmente o partido.
Ex-guerrilheiros no centro da contestação
A crise interna ganhou uma dimensão adicional com o envolvimento de antigos guerrilheiros da RENAMO.
Em Fevereiro de 2026, a DW noticiou que António Muchanga e Alfredo Magumisse se tinham juntado a antigos guerrilheiros na contestação à liderança de Ossufo Momade. Na altura, ex-guerrilheiros provenientes de várias províncias reuniram-se na Matola e defenderam a saída do presidente da RENAMO.
A participação dos antigos combatentes torna a disputa particularmente sensível devido ao seu peso histórico na trajectória da RENAMO e ao processo de desmobilização, desarmamento e reintegração associado ao processo de paz.
A contestação não se limita, por isso, a uma disputa entre figuras políticas. Envolve também diferentes sectores da estrutura partidária e antigos combatentes que continuam a reivindicar espaço e influência na definição do futuro da organização.
Carvalho endurece discurso
Nas suas intervenções recentes, Geraldo Carvalho tem adoptado uma posição de defesa da actual liderança da RENAMO e de crítica aos sectores que contestam Ossufo Momade.
Em Junho, durante uma conferência de imprensa mandatada pela liderança do partido, Carvalho já havia confrontado publicamente António Muchanga a propósito de uma disputa relacionada com a sua suspensão da RENAMO e um pedido de indemnização por alegados danos morais.
Na ocasião, Carvalho afirmou que foi a própria RENAMO que projectou Muchanga politicamente e contestou a legitimidade do antigo deputado para exigir uma compensação financeira ao partido. A posição foi igualmente noticiada pelo Jornal Notícias e pela DW.
A disputa evoluiu posteriormente para questões mais amplas sobre quem tem legitimidade para falar em nome da RENAMO e decidir sobre o futuro da organização.
Encerramento de delegações aumenta tensão
Outro ponto de tensão está relacionado com o encerramento de delegações provinciais da RENAMO.
Segundo O País, Carvalho criticou essas movimentações e deixou um aviso aos responsáveis pelas acções, afirmando que a resposta do partido poderá ocorrer na mesma medida. O dirigente também questionou a legitimidade de grupos que afirmam falar em nome dos desmobilizados.
O porta-voz da RENAMO, Marcial Macome, reconheceu a existência de divergências internas, mas defendeu o respeito pelas estruturas e pelos estatutos do partido.
Sobre a exigência de um congresso extraordinário, Macome afirmou que existem procedimentos estatutários próprios para a convocação desse órgão e que estes devem ser respeitados.
Uma crise que se prolonga
As actuais divergências não surgiram de forma isolada. Nos últimos meses, a RENAMO tem enfrentado uma crescente contestação interna à liderança de Ossufo Momade.
Em Fevereiro, antigos guerrilheiros chegaram a defender publicamente a saída do presidente do partido, enquanto sectores políticos associados à contestação procuravam pressionar a direcção para promover mudanças.
Em Junho, a RENAMO voltou a confrontar António Muchanga depois de este avançar judicialmente contra a decisão que determinou a sua suspensão do partido. A DW noticiou que Muchanga contestava o processo disciplinar e admitia reclamar uma indemnização por alegados danos morais.
O caso demonstra que a disputa ultrapassou já o debate político interno e passou também para a esfera judicial.
O peso da história da RENAMO
A actual crise ocorre numa organização marcada por uma história política e militar particularmente complexa.
A RENAMO esteve envolvida no conflito armado que terminou com o Acordo Geral de Paz de 1992 e, posteriormente, participou em diferentes processos destinados a consolidar a paz e a reintegrar antigos combatentes.
Mais recentemente, o processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) procurou retirar definitivamente a dimensão militar da RENAMO e reintegrar antigos combatentes na sociedade.
Por essa razão, o envolvimento de ex-guerrilheiros em disputas políticas internas é acompanhado com atenção, sobretudo quando surgem reivindicações relacionadas com o controlo de estruturas partidárias.
Contudo, as acusações trocadas entre os dirigentes devem ser tratadas como posições políticas dos próprios intervenientes, e não como factos comprovados. Até ao momento, as fontes consultadas confirmam a existência da disputa e do envolvimento de antigos combatentes na contestação, mas não permitem afirmar como facto que António Muchanga esteja a “manipular” ex-guerrilheiros.
Futuro da RENAMO em disputa
A questão central que emerge desta crise é o futuro da RENAMO e a capacidade da organização de resolver as suas divergências através dos mecanismos internos previstos nos seus estatutos.
De um lado, a direcção de Ossufo Momade procura preservar a autoridade da liderança e defende o respeito pelos procedimentos internos. Do outro, sectores contestatários exigem mudanças e pressionam pela realização de um congresso extraordinário.
A troca de acusações entre Geraldo Carvalho e António Muchanga é, neste contexto, mais um episódio de uma disputa que coloca em confronto diferentes visões sobre a liderança, o funcionamento e o futuro da segunda maior força política da oposição moçambicana.
O desfecho dependerá da capacidade da RENAMO de encontrar uma solução institucional para as divergências, evitando que a disputa política aprofunde as divisões entre militantes, antigos combatentes e diferentes sectores da organização.



