A recente suspensão da actividade mineira em Manica, anunciada pelo secretário de Estado provincial, Lourenço Lindonde, voltou a expor um problema antigo e persistente: a degradação ambiental causada pela exploração de ouro, que tem deixado rios contaminados, solos inférteis e comunidades em risco.
Em Manica, estima-se que mais de 12 cursos de água estejam afectados pela mineração artesanal e semi-industrial, incluindo os rios Revué, Zembe, Nhancuarara e Mussapa. Estudos preliminares de organizações ambientais indicam elevados níveis de mercúrio e cianeto — químicos usados na separação do ouro — em várias amostras de água, superando em muito os limites de segurança recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O mercúrio, além de contaminar os peixes, acumula-se nos organismos humanos, podendo causar problemas neurológicos graves. Agricultores relatam que as culturas irrigadas com água poluída apresentam baixo rendimento, e muitas famílias já recorrem a poços improvisados, expondo-se a outros riscos sanitários.
A província de Manica é responsável por cerca de 30% do ouro produzido em Moçambique, segundo dados do Instituto Nacional de Minas (INAMI). Estima-se que mais de 50 mil garimpeiros artesanais dependam directamente desta actividade, muitos sem alternativas de rendimento.
No entanto, as comunidades ribeirinhas pagam a factura mais pesada. Em localidades como Mavonde e Penhalonga, o acesso à água potável tornou-se um desafio diário. Mulheres percorrem quilómetros em busca de fontes alternativas, enquanto crianças sofrem com diarreias e doenças de pele associadas ao consumo de água contaminada.
O impacto vai além do humano. A fauna aquática dos rios de Manica está em queda livre. Pescadores relatam a quase extinção de algumas espécies locais, antes abundantes. A desflorestação, motivada pela abertura de novas áreas de mineração, acelera a erosão dos solos e contribui para o assoreamento dos rios, tornando-os cada vez mais rasos e incapazes de suportar a biodiversidade.
Apesar de várias operações de fiscalização anunciadas nos últimos cinco anos, muitas vezes conduzidas pelo INAMI e pela Inspecção do Ambiente, a mineração ilegal continua a expandir-se. Fontes locais apontam falhas na monitoria e até conivência de alguns agentes estatais.
O Governo, por seu lado, insiste que está a reforçar os mecanismos de controlo e promete aplicar sanções severas contra operadores reincidentes. Contudo, organizações da sociedade civil alertam que as medidas punitivas são insuficientes se não forem acompanhadas por políticas que ofereçam alternativas económicas sustentáveis às comunidades dependentes do garimpo.
Manica continua, assim, dividida entre a riqueza potencial do ouro e os custos ambientais e sociais da sua exploração desordenada. Para os ambientalistas, a questão é clara: “Se não forem tomadas medidas estruturais, dentro de poucos anos a província poderá perder não apenas os seus rios, mas também a base agrícola que sustenta milhares de famílias”.
Enquanto o debate prossegue, os rios de Manica, antes fonte de vida, seguem a transformar-se em corredores de poluição — lembrando diariamente o preço da riqueza mal gerida.
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