Por Emuel Moisés
Moçambique, essa terra de gente trabalhadora e de espírito resiliente, é uma nação que nasceu entre rios e mares, mas continua a mendigar o essencial — seja a água potável, a energia eléctrica ou o pão de cada dia. É quase irónico: o país que tem uma das linhas costeiras mais longas de África ainda luta para distribuir água potável aos seus cidadãos. O país que exporta energia continua a deixar vilas inteiras às escuras. E o país que se diz agrícola, continua refém da importação para alimentar o seu próprio povo.
Há quem diga que o problema é de gestão. Outros acusam a corrupção. E há os que, mais prudentes, atribuem tudo à falta de visão. Mas a verdade é que falhámos colectivamente em compreender que o desenvolvimento não é um acontecimento — é um processo. E nesse processo, nós, moçambicanos, temos tropeçado demasiadas vezes nos mesmos erros.
Não temos uma ferrovia nacional que una as províncias, nem uma estrada contínua e segura que ligue o norte ao sul sem interrupções. Viajar por Moçambique é, ainda hoje, uma aventura com final imprevisível. Há zonas que parecem esquecidas por completo — sem luz, sem estrada, sem escola, sem hospital. É como se o progresso fosse uma bênção reservada apenas a quem vive próximo da capital.
A agricultura, que deveria ser o motor da nossa economia, permanece estacionada num passado de enxadas e capulanas. Falta mecanização, falta irrigação, falta planeamento. Continuamos dependentes das chuvas, e quando estas falham, falha tudo: a colheita, o alimento, o sustento e, no fim, a esperança.
E o desporto? O futebol, paixão nacional, resume-se a promessas e projectos inacabados. Não há um estádio digno que resista a uma vistoria internacional sem levantar dúvidas sobre a segurança, a drenagem ou as bancadas. A juventude joga descalça, enquanto os dirigentes jogam com o futuro de todos nós.
A educação, outro pilar do desenvolvimento, cambaleia entre a falta de carteiras e o desinteresse político. As crianças estudam no chão, com fome, mas com sonhos que resistem à poeira. E ainda assim, esperamos milagres — esperamos que elas construam o futuro com o pouco que lhes damos.
Os recursos minerais, que deveriam ser bênção, tornaram-se maldição. Terras devastadas, comunidades expulsas, rios contaminados. A riqueza que sai do subsolo nunca regressa à superfície em forma de progresso. O ouro, o carvão, o gás — tudo isso brilha para fora, mas escurece por dentro.
E no meio disto tudo, olhamos para as figuras que durante décadas comandaram os destinos da pátria. Muitos deles ainda lá estão, ou deixaram discípulos à altura dos mesmos vícios. O que podemos destacar de avanço? Talvez a sobrevivência. E isso, por mais duro que soe, não é progresso — é resistência.
Mas ainda há tempo. O país precisa, urgentemente, de uma nova forma de pensar: uma mentalidade que valorize o campo tanto quanto a cidade; que compreenda que o futuro não se constrói com discursos, mas com acções. Precisamos de um novo contrato social — um pacto de responsabilidade colectiva, onde cada um reconheça o seu papel na construção de um Moçambique sustentável e justo.
O sonho de um novo Moçambique não pode continuar a ser um poema bonito recitado em comícios. Tem de ser um plano concreto, feito de trabalho, honestidade e compromisso. Porque, no fim, o futuro não se herda — constrói-se.
E a pergunta que devemos fazer, olhando o espelho da nossa própria história, é simples: seremos nós capazes de construir esse futuro, ou continuaremos a contemplar o fracasso como se fosse destino?
