Quando o Tribunal Administrativo revelou que 33,65 milhões de dólares das receitas do gás natural não foram devidamente canalizados para o Fundo Soberano de Moçambique (FSM), não se tratou apenas de um número num relatório técnico.
Tratou-se de um choque moral, um lembrete duro de que o país ainda luta com os velhos fantasmas: falta de transparência, cultura de impunidade e o uso ligeiro de recursos que pertencem a todos.O Fundo Soberano nasceu com uma promessa simples e patriótica: garantir que as riquezas do gás natural beneficiem tanto a geração de hoje como as de amanhã. Um mecanismo para poupar, investir e proteger o futuro, em vez de gastar tudo no presente.
Mas a auditoria do Tribunal Administrativo mostra outra história — uma história onde parte das receitas foi desviada, contas não batem certo e a legalidade foi tratada como mera formalidade. Três parcelas, vários anos, explicações confusas e, no fim, silêncio político. É um retrato doloroso de um Estado que ainda confunde o “cofre público” com “conta de gestão privada”.
Trinta e três milhões de dólares podem parecer uma gota num oceano de orçamentos bilionários. Mas o que está em causa é a confiança — o pilar invisível que sustenta qualquer economia.
Se o Estado mente nas contas, se o dinheiro não segue o caminho que a lei manda, como esperar que os cidadãos paguem impostos de boa fé?
Como atrair investidores sérios para um país onde o destino das receitas do gás — o sector mais promissor — é nebuloso?
Moçambique vive um momento histórico: tem nas mãos o potencial energético que pode redefinir o seu destino económico. Mas sem integridade na gestão, todo esse potencial pode evaporar-se, como tantos outros antes dele.
Durante décadas, a governação pública moçambicana tem funcionado sob uma lógica que confunde “responsabilidade política” com “poder político”. Quem governa sente-se dono do Estado, não seu gestor temporário.
O resultado? Instituições que deviam ser fortes tornam-se decorativas, e relatórios como o do Tribunal Administrativo acabam a ser lidos com indignação, mas sem consequências.
O desvio dos 33 milhões não é um erro técnico. É um sintoma estrutural de um modelo que protege o poder e negligencia o dever.
A minha geração cresceu a ouvir que o gás e o carvão seriam a salvação nacional. Mas de que serve extrair riqueza se não se sabe guardá-la?
O Fundo Soberano devia ser o símbolo de uma nova era — de um Moçambique que aprende com os erros da dívida oculta, que rompe com a corrupção institucional e que começa a planear para 2050, não apenas para o próximo ciclo eleitoral.
A juventude precisa de exigir mais. Precisamos de falar sobre orçamentos, leis, auditorias — temas que parecem aborrecidos, mas que decidem se teremos empregos, escolas e hospitais amanhã.
Nada está perdido. O relatório do Tribunal Administrativo, apesar de duro, é também um sinal de vitalidade institucional. Mostra que ainda existem órgãos que fiscalizam, denunciam e resistem à tentação de se calarem.
O verdadeiro desafio agora é transformar denúncia em reforma, e escândalo em lição.
O futuro soberano de Moçambique não depende apenas do gás, mas de algo muito mais raro: vontade política com ética e memória.
O país precisa de líderes que compreendam que gerir recursos públicos é um acto de honra — e que cada dólar desviado é um pedaço do futuro roubado.
