Deslocados do distrito de Memba, provΓncia de Nampula, denunciam estar a ser vΓtimas de extorsΓ£o por parte de agentes da PolΓcia de TrΓ’nsito e da Unidade de IntervenΓ§Γ£o RΓ‘pida (UIR), num momento em que milhares fogem de novos ataques terroristas registados na regiΓ£o. A situaΓ§Γ£o, jΓ‘ marcada pelo pΓ’nico e pela incerteza, ganha contornos ainda mais graves com relatos de cobranΓ§as ilegais para permitir a passagem rumo a zonas seguras.
Segundo testemunhos recolhidos pelo jornal Ikweli, nos postos de controlo montados ao longo das vias de saΓda de Memba, os agentes estariam a exigir o popularmente chamado “refresco” — pequenas quantias em dinheiro — para autorizar a circulaΓ§Γ£o de pessoas que tentam escapar das incursΓ΅es armadas. Quem nΓ£o tem dinheiro, afirmam os deslocados, Γ© mandado regressar, muitas vezes com a justificaΓ§Γ£o de que “a situaΓ§Γ£o jΓ‘ estΓ‘ normalizada”, uma afirmaΓ§Γ£o que contrasta com os relatos de ataques recentes.
Motoristas e motociclistas que transportam famΓlias em fuga confirmam que a passagem depende do pagamento. “Quem paga passa, quem nΓ£o paga volta para trΓ‘s”, disse um dos transportadores, lamentando a exploraΓ§Γ£o num momento de desespero. Para muitos habitantes, a polΓcia, que deveria garantir seguranΓ§a e apoio, tornou-se mais um obstΓ‘culo numa rota marcada pelo medo.
A situaΓ§Γ£o agrava-se com o aumento repentino e drΓ‘stico das tarifas de transporte no troΓ§o Memba–Nacala-Γ -Velha. O preΓ§o por passageiro, que antes era de 150 meticais, subiu para valores entre 400 e 500 meticais. O transporte de mercadorias tambΓ©m disparou: um saco de mandioca seca, anteriormente transportado por 50 meticais, agora custa 100. Para quem foge apenas com o que consegue levar, estes valores sΓ£o praticamente incomportΓ‘veis.
Os deslocados mostram frustraΓ§Γ£o e revolta: num momento em que perdem casas, bens e familiares, esperavam solidariedade e medidas de alΓvio — nΓ£o agravamento dos custos. “Estamos a fugir da morte, e ainda assim querem lucrar com o nosso sofrimento”, lamentou uma das vΓtimas.
Este cenΓ‘rio reacende o debate sobre abusos de autoridade, fragilidade no controlo institucional e necessidade urgente de uma resposta humanitΓ‘ria coordenada que coloque a vida das pessoas acima de qualquer interesse individual. A populaΓ§Γ£o pede intervenΓ§Γ£o firme das autoridades para pΓ΄r termo Γ s prΓ‘ticas de extorsΓ£o e para garantir transporte seguro, acessΓvel e digno para quem procura apenas sobreviver.
Num paΓs habituado a enfrentar crises com resiliΓͺncia, ver agentes do Estado e operadores privados lucrar com a dor alheia Γ©, no mΓnimo, um golpe no espΓrito comunitΓ‘rio. E, como dizem muitos jovens hoje, “nΓ£o dΓ‘ para passar pano para isto”. Γ preciso agir — e rΓ‘pido.
