CHUVAS REATIVAM FERIDAS NA CAPITAL E AMEAÇAM ARRASTAR POLANA CANIÇO AO MAR


Mais uma vez, a chuva volta a arrastar o costeiro bairro da Polana Caniço, expondo uma ferida antiga que o tempo e as intervenções pontuais nunca conseguiram sarar.


Por onde a água passou no passado, deixou marcas profundas: luto, destruição de residências e um cenário de vulnerabilidade permanente. Desta vez, as chuvas intensas voltaram a forçar o alargamento das crateras e covas existentes no troço que anteriormente correspondia à Rua da Costa do Sol, que parte da esquina de Compone, passa junto ao Hospital Geral da Polana Caniço e liga à Avenida Julius Nyerere.


O que muitos ignoram — mas a natureza nunca esquece — é que a Polana Caniço constitui um corredor crucial de drenagem natural, por onde as águas pluviais sempre escoaram em direcção ao seu destino final: o mar, na zona da Costa do Sol. O problema é que, ao longo dos anos, este corredor foi sendo ocupado, estrangulado e ignorado pelo planeamento urbano, sem a criação de valas de drenagem adequadas.


Como resultado, a água, impedida de seguir o seu curso normal, invade e arrasta tudo o que encontra pela frente. Casas que não deveriam ser inundadas acabam por ser destruídas pela força da corrente, simplesmente porque a água procura, à força, o caminho que lhe foi negado.


Desde as intempéries do ano 2000 e das chuvas intensas registadas nos anos subsequentes, a via ficou parcialmente intransitável, sobretudo no troço entre a Rua Carlos Cardoso e a Avenida Julius Nyerere, esta última reabilitada pela edilidade em 2014. No entanto, a intervenção não resolveu o problema estrutural: o escoamento das águas.


Agora, sem piedade, a chuva ameaça novamente arrastar parte do bairro, expondo dezenas de famílias ao risco de ficarem sem abrigo nos próximos dias, numa altura em que a presente época chuvosa ainda não atingiu o seu pico.


Na Polana Caniço, há residências que se encontram a escassos metros das ravinas abertas pela corrente das águas. Falta pouco para que sejam literalmente levadas rumo à Costa do Sol, seguindo o percurso natural da água que, apesar de tudo, continua a cumprir o seu destino.


Aqui, o problema não é apenas a chuva. É a falta de respeito pelo caminho da água. E quando isso acontece, a factura é sempre paga pelos mesmos.

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