No bairro da Liberdade, no Município da Matola, a circulação de pessoas está a ser feita, em grande parte, através de “txovas”, meio improvisado de transporte utilizado para atravessar ruas completamente inundadas e praticamente intransitáveis, na sequência das chuvas que se fazem sentir nos últimos dias.
As vias de acesso encontram-se submersas, com níveis de água que ultrapassam os joelhos em vários pontos, obrigando moradores, incluindo crianças, idosos e mulheres grávidas, a recorrerem aos serviços de jovens do bairro que, mediante pagamento, transportam pessoas em carrinhos de mão adaptados ou estruturas improvisadas. É a velha estratégia de sobrevivência urbana: quando a estrada desaparece, a criatividade entra em cena.
Moradores ouvidos no local dizem que a situação não é nova e repete-se sempre que a época chuvosa aperta. “Aqui, quando chove a sério, já sabemos o filme. A água entra nas casas, as ruas somem e só com txova é que se passa”, relatou um residente, visivelmente resignado.
O cenário surge pouco tempo depois de o Presidente do Conselho Municipal da Matola, Júlio Parruque, ter efectuado uma visita ao bairro da Liberdade, no âmbito das acções de preparação da época chuvosa. Na ocasião, o edil destacou a necessidade de demolição de infra-estruturas erguidas em zonas consideradas corredores naturais de drenagem, vulgarmente conhecidos como caminhos de passagem de água.
Apesar dessas intervenções, as chuvas chegaram e o quadro habitual dos anos anteriores voltou a manifestar-se, levantando questionamentos entre os munícipes sobre a eficácia das medidas adoptadas e a necessidade de soluções estruturais duradouras.
Alguns residentes reconhecem o esforço do município, mas defendem que demolições pontuais não resolvem um problema que é essencialmente de ordenamento urbano e drenagem deficiente. “Não basta tirar uma casa aqui e ali. É preciso abrir valas, limpar os canais e pensar o bairro como um todo”, comentou outro morador.
Enquanto isso não acontece, a vida segue ao ritmo possível. As “txovas” continuam a circular, as crianças faltam à escola, comerciantes fecham portas mais cedo e a Liberdade, ironicamente, fica refém da água.
É o presente a cobrar decisões do passado. E, como sempre, quem paga primeiro é o cidadão comum.
