Cansada de esperar por soluções e informações claras, a população começou a percorrer longas distâncias a pé entre as províncias de Maputo e Gaza, enfrentando sérios riscos de afogamento em zonas ainda submersas, na sequência do corte prolongado da Estrada Nacional Número Um (EN1) devido às cheias dos rios Incomáti e Limpopo.
Volvidas mais de duas semanas desde a interrupção da principal via rodoviária do país, dezenas de famílias continuam retidas em pontos considerados provisoriamente seguros, sobretudo na localidade de 3 de Fevereiro, na província de Maputo, sem qualquer certeza sobre o estado dos seus familiares do outro lado da estrada. O desespero falou mais alto: homens, mulheres e jovens decidiram avançar a pé até Macia, na província de Gaza, atravessando áreas alagadas, por vezes mergulhando em trechos de profundidade desconhecida.
Entre os peregrinos constam cidadãos com fontes de rendimento na África do Sul, que se encontravam em Moçambique para gozar férias em diferentes províncias. Com o corte da EN1, muitos acabaram por passar dias e noites ao relento, sem meios para regressar ou seguir viagem. Para estes, o maior risco deixou de ser a água: passou a ser a distância forçada da família e a incerteza prolongada.
Fontes locais ouvidas pela nossa reportagem confirmam que a situação no terreno é crítica, sobretudo pela ausência de alternativas viáveis de travessia e pela lentidão na reposição integral da circulação rodoviária. Apesar disso, o Executivo moçambicano garante que decorrem trabalhos de emergência para restabelecer a transitabilidade.
De acordo com dados avançados por autoridades locais e equipas técnicas no terreno, já é visível a reposição de solos no terceiro corte, de um total de seis pontos totalmente destruídos pela força das águas, afectando troços da EN1 nas províncias de Maputo e Gaza. As intervenções incluem não apenas a colocação de solo compactado, mas também trabalhos de correcção da erosão lateral, com vista a devolver à estrada a largura mínima de segurança.
Entretanto, fontes técnicas admitem que a extensão dos danos e a instabilidade do terreno reduzem, para já, a possibilidade de construção imediata de pontes provisórias nos pontos mais críticos, uma vez que o nível das águas e a fragilidade das margens continuam a representar riscos operacionais.
As autoridades apelam à calma da população e reiteram que a circulação pedonal em zonas inundadas representa perigo real de vida, sublinhando que os trabalhos em curso visam garantir uma reposição segura e duradoura da via. No terreno, porém, a realidade é dura e directa: para muitos cidadãos, esperar deixou de ser opção.
Enquanto a EN1 não volta a ligar, em pleno, o sul do país, milhares de moçambicanos continuam presos entre a paciência e o risco, numa demonstração clara de como as cheias voltaram a expor a fragilidade das infra-estruturas e o peso humano das emergências climáticas em Moçambique.




