A redução do caudal do Rio Matola não significou o regresso à normalidade para as comunidades de Gunbana, Tenga e Siduava, no distrito de Boane, província de Maputo. As cheias provocadas pelas chuvas intensas que caíram nas últimas semanas destruíram a infra-estrutura precária de travessia existente, deixando a população praticamente isolada.
No local, a equipa de reportagem da TV Miramar constatou que a passagem que ligava as comunidades assentava em cinco manilhas, actualmente entupidas por lama, troncos e outros resíduos arrastados pela corrente das águas. Com o colapso da estrutura, a circulação de pessoas, bens e serviços ficou severamente condicionada.
Perante a ausência de uma alternativa imediata, os moradores recorreram a meios de fortuna para garantir o mínimo de mobilidade. Ramos de canhueiros e troncos de diversas árvores foram cortados e colocados sobre o leito do rio, criando uma travessia improvisada. A solução, porém, é manifestamente insegura, sobretudo para crianças, idosos e mulheres grávidas, além de representar risco acrescido em caso de nova subida do nível das águas.
A situação ganhou contornos ainda mais delicados quando alguns residentes passaram a cobrar uma taxa de 10 meticais por cada travessia. Segundo apurou a Miramar, a prática surgiu como forma de “compensar o esforço” de quem construiu a passagem improvisada, mas tem gerado descontentamento numa altura em que a população enfrenta dificuldades económicas e uma acentuada crise no transporte público.
Em declarações à Miramar, vários moradores afirmaram sentir-se abandonados. “Estamos a sofrer. As crianças não conseguem ir à escola, doentes não chegam ao hospital e até comprar comida tornou-se difícil”, lamentou um residente de Tenga. Outro morador sublinhou que a cobrança agrava a situação, mas reconheceu que “as pessoas também estão a tentar sobreviver”.
Contactadas pela reportagem, fontes da Administração Distrital de Boane confirmaram ter conhecimento da situação e garantiram que o caso foi reportado às instâncias competentes, incluindo a Direcção Provincial das Obras Públicas e Recursos Hídricos. As autoridades reconhecem que as cheias provocaram danos significativos em vários pontos do distrito e afirmam estar a efectuar o levantamento técnico para intervenções de emergência.
Os residentes, contudo, defendem que soluções temporárias já não são suficientes. Em uníssono, lançam um apelo às autoridades governamentais para a construção urgente de uma “ponte de raiz”, uma infra-estrutura definitiva que garanta circulação segura durante todo o ano, independentemente das condições climatéricas.
Enquanto se aguarda uma resposta concreta do Governo, Gunbana, Tenga e Siduava continuam a viver sob incerteza, com a travessia improvisada sobre o Rio Matola a simbolizar, de forma crua, a vulnerabilidade das comunidades face aos efeitos das mudanças climáticas e à falta de infra-estruturas resilientes. Aqui não há drama encenado: há um problema antigo, conhecido, e que continua à espera de solução.
