MULHERES DA ZAMBÉZIA APONTAM DESAFIOS SOCIOECONÓMICOS E FALTA DE CELERIDADE NA IMPLEMENTAÇÃO DE ESTRATÉGIAS PARA APROVEITAMENTO DE POTENCIALIDADES LOCAIS
Mais de cinquenta mulheres provenientes de diversos distritos da província da Zambézia reuniram-se, esta quinta-feira (05/02), na cidade de Quelimane, para debater os principais entraves ao desenvolvimento feminino, durante o Evento Nacional Simultâneo das Mulheres, inserido no processo de auscultação pública para o Diálogo Nacional Inclusivo.
A iniciativa, promovida simultâneamente em todo o país, visa recolher contribuições das mulheres moçambicanas sobre questões estruturais que condicionam a sua participação plena na vida social, política e económica do país.
Durante o encontro, as participantes manifestaram preocupação com a persistência de barreiras que limitam o empoderamento feminino na província, com destaque para a fraca inclusão económica, alegados casos de corrupção no acesso ao emprego e práticas de abuso sexual associadas à obtenção de oportunidades laborais. Foram igualmente apontadas dificuldades no acesso e permanência no sistema de ensino, sobretudo nas zonas rurais, onde factores socioculturais e económicos continuam a influenciar negativamente a educação da rapariga.
Outro ponto amplamente debatido foi a desorganização das cadeias de valor locais. As intervenientes defenderam a necessidade de maior aproveitamento das potencialidades económicas da província, incluindo o porto de Quelimane, considerado estratégico para dinamizar actividades comerciais, impulsionar a industrialização e gerar postos de trabalho, sobretudo para a juventude.
Falando em representação das participantes, Erica Tivane sublinhou que, apesar de a Zambézia ser a segunda província mais populosa de Moçambique, continua a enfrentar elevados níveis de pobreza. Segundo referiu, dados apresentados durante o encontro indicam que a província regista um índice de pobreza estimado em 56,5 por cento, aliado a uma taxa de analfabetismo feminino que ronda os 59,8 por cento, situação que, na sua óptica, compromete o desenvolvimento sustentável e a autonomia económica da mulher.
Ainda assim, Erica Tivane destacou a resiliência das mulheres zambezianas, afirmando que continuam empenhadas na busca por melhores condições de vida, defendendo maior inclusão nos programas governamentais e nas iniciativas privadas de desenvolvimento.
Por sua vez, Bernardete, outra participante no encontro, defendeu o processamento local dos recursos naturais existentes na província, argumentando que tal medida poderá impulsionar a criação de emprego, reduzir a dependência da exportação de matéria-prima em bruto e reforçar a economia local. A interveniente apelou igualmente ao reforço da transparência e da boa governação na gestão dos recursos naturais.
No encerramento do evento, a coordenadora do Núcleo de Associações Femininas da Zambézia (NAFEZA), Cândida Quintano, considerou que o encontro constituiu um espaço importante para que as mulheres expressassem, de forma aberta, os desafios enfrentados no seio familiar, comunitário e institucional. Segundo afirmou, muitas das preocupações apresentadas resultam de práticas patriarcais ainda enraizadas na sociedade, que limitam a participação feminina nos processos de tomada de decisão.
Cândida Quintano acrescentou que as contribuições recolhidas serão sistematizadas e encaminhadas para as instâncias competentes, com vista à sua integração nas discussões do Diálogo Nacional Inclusivo, reforçando a necessidade de políticas públicas que promovam a igualdade de género e o desenvolvimento equilibrado no país.
O Evento Nacional Simultâneo das Mulheres insere-se no esforço do Governo e de organizações da sociedade civil para garantir uma participação mais abrangente dos diferentes segmentos sociais na definição de estratégias de governação, reconciliação social e desenvolvimento sustentável em Moçambique.


