O norte de Moçambique continua a ser palco de um drama humanitário e de segurança que desafia o senso comum e a paciência de toda a nação.
Seis anos depois do início das incursões terroristas em Cabo Delgado, a pergunta que persiste não é apenas “quando acabará a violência?”, mas sim “há ou não mão de dirigentes moçambicanos por detrás destes actos bárbaros?”.Durante as comemorações dos 61 anos das Forças Armadas de Moçambique, o Presidente da República, Daniel Chapo, fez um apelo firme: todos devem envolver-se activamente no combate ao terrorismo, e é urgente que os quadros do sector abandonem os gabinetes e alistem os filhos para o teatro operacional do norte. Este chamado à acção é inequívoco, mas revela também um desconforto institucional: se todos são chamados à linha de frente, há de facto uma sensação de que algo mais profundo mina a eficiência do combate ao terror.
O episódio mais recente, no programa Hora do Governo, trouxe à tona as tensões existentes. O jornalista Brito Simango confrontou o ministro da Defesa Nacional, Cristóvão Chume, com a questão que todos têm na mente: há generais das Forças Armadas a colaborar com grupos terroristas? A resposta de Chume foi, no mínimo, evasiva. Entre cautelas e generalidades, o ministro evitou uma afirmação concreta, sugerindo que qualquer acusação sem provas seria “subjectiva” e lembrando que até ele próprio poderia ser alvo de suspeitas.
A tensão aumenta quando se fala de uniformes militares usados pelos insurgentes. Chume admitiu que estes podem ser produzidos localmente ou replicados a partir de modelos existentes. Mais preocupante é o reconhecimento de que “é possível que haja pessoas trabalhando dos dois lados”. Mas, perante perguntas directas sobre números de detidos ou investigações a generais, a resposta foi o silêncio institucional: “não tenho números” e “os generais são poucos, basta indicar um e será investigado”.
O que tudo isto revela é uma lacuna grave na transparência e responsabilidade das nossas instituições de defesa. Quando uma sociedade não recebe informações claras sobre quem está a combater a pátria e como isso é gerido, a dúvida cresce, e com ela, a desconfiança. O silêncio ou a evasão, em casos tão delicados, não é neutro: ele alimenta rumores, enfraquece a confiança das comunidades afectadas e dificulta a mobilização de todos no combate ao terror.
Cabo Delgado precisa mais do que operações militares isoladas. Precisa de clareza, liderança corajosa e responsabilidade institucional. É imperativo que se investigue até às últimas consequências qualquer suspeita dentro das Forças Armadas, e que os resultados sejam tornados públicos. Só assim será possível devolver esperança às populações, mostrar que a pátria está unida contra o mal e construir um futuro em que jovens e famílias possam viver sem medo.
Enquanto os moçambicanos aguardam respostas, o tempo não espera. Cada dia perdido em evasivas e silêncio institucional fortalece aqueles que semeiam o terror. E, como sempre, a história nos lembra: sociedades que fecham os olhos aos sinais internos raramente se fortalecem. Cabo Delgado e Moçambique exigem mais que palavras; exigem acção clara, firme e responsável.
