Tratores como transporte público: solução improvisada ou falha estrutural?

 


Em pleno século XXI, a imagem de homens, mulheres e crianças viajarem em tratores ou carroças puxadas por bois para se deslocarem de uma localidade a outra pode parecer um retrato de tempos coloniais. Contudo, essa é ainda a realidade quotidiana de milhares de moçambicanos em distritos como Magude (N’Canhuine) e Calanga, no distrito da Manhiça, ambos na província de Maputo.

A ausência de estradas transitáveis e a inexistência de transporte público regular obrigam as comunidades a improvisar com os meios disponíveis. O trator, inicialmente destinado à lavoura, tornou-se alternativa para transportar pessoas e mercadorias. A ironia é clara: aquilo que deveria ser um suporte à produção agrícola, assume-se hoje como o único “ônibus” capaz de desafiar o areal, as valas e os caminhos intransitáveis.


É, portanto, justo perguntar: trata-se de uma resposta adaptativa das populações a um problema concreto ou é reflexo de falta de vontade política para resolver questões estruturais de mobilidade?

A resposta não exige grandes rodeios. O recurso ao trator revela a criatividade e resiliência das comunidades, mas ao mesmo tempo denuncia o fracasso do Estado em cumprir o seu papel. Nenhuma sociedade pode aspirar a desenvolvimento quando os cidadãos são obrigados a deslocar-se em condições precárias, sem segurança, conforto ou dignidade.


O discurso oficial, muitas vezes, justifica-se com limitações orçamentais, priorização de obras de maior escala ou mesmo com a dificuldade geográfica de certas zonas. Porém, esta narrativa não se sustenta por muito tempo. Se há recursos para erguer grandes infra-estruturas em centros urbanos, também deveria haver vontade para investir em estradas secundárias e sistemas de transporte rural. O custo da inação é alto: isolamento social, atraso económico, dificuldades de acesso à escola e aos serviços de saúde.

A verdade é que o trator transformado em “chapas” não é solução — é improviso. E improviso, por melhor que funcione no imediato, não substitui políticas públicas estruturadas. A dignidade do cidadão moçambicano exige mais.


O Estado não pode delegar eternamente ao boi, ao burro ou ao trator a responsabilidade de assegurar mobilidade às populações. É urgente olhar para estas localidades como parte do país real, onde vivem moçambicanos que trabalham, produzem e sonham. O mínimo que se lhes deve garantir é uma estrada transitável e um transporte condigno.

No fundo, o que hoje se apresenta como uma solução prática é apenas um lembrete gritante de que continuamos a falhar naquilo que deveria ser básico: assegurar condições de vida minimamente justas para todos.


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