O ambiente de desconfiança entre o empresariado local e a multinacional francesa TotalEnergies volta a ganhar força no distrito de Palma, numa altura em que se discute a retoma plena do projecto de gás natural na península de Afungi.
O Conselho Empresarial de Palma afirma não acreditar na reabertura dos portões do acampamento de Afungi, considerado o centro operacional do projecto Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies na Área 1 da bacia do Rovuma. A posição foi tornada pública pelo presidente da agremiação, Chemsi Issa, em declarações à Zumbo FM Notícias, denunciando a falta de respostas concretas por parte da empresa, apesar de vários pedidos formais e encontros já realizados.
Segundo os empresários locais, o encerramento e o controlo rigoroso de acesso à península de Afungi continuam a excluir o tecido empresarial de Palma das oportunidades económicas associadas ao megaprojecto. Esta situação, dizem, está a sufocar os negócios e a comprometer o desenvolvimento do distrito.
Fontes locais indicam que a maior parte das empresas subcontratadas e respectivos trabalhadores passou a operar dentro do acampamento, num modelo fechado e altamente securitizado, limitando drasticamente a circulação de bens, serviços e mão-de-obra local.
O impacto desta dinâmica tem sido severo. Pequenos empresários relatam queda acentuada nas receitas, redução de oportunidades de emprego e um crescente sentimento de marginalização. A economia local, que anteriormente dependia da presença de trabalhadores e fornecedores ligados ao projecto, encontra-se fragilizada.
Dados recentes apontam que o modelo adoptado pela multinacional — com acesso ao projecto essencialmente por via aérea e marítima — tem contribuído para o isolamento económico de Palma, contrariando as expectativas iniciais de desenvolvimento inclusivo.
Este cenário ocorre numa fase em que o Governo moçambicano e a TotalEnergies anunciaram a retoma do projecto, avaliado em cerca de 20 mil milhões de dólares, após a suspensão em 2021 devido à insegurança armada na região.
Apesar disso, empresários locais defendem que a retoma não está a traduzir-se em benefícios concretos para as comunidades anfitriãs. Pelo contrário, alegam que o projecto continua a operar como um “enclave”, desligado da realidade socioeconómica do distrito.
Por seu turno, a TotalEnergies tem reiterado, em ocasiões anteriores, o seu compromisso com o desenvolvimento local, negando qualquer incumprimento de acordos com as comunidades e justificando as restrições de acesso com questões de segurança e organização operacional.
Entretanto, analistas alertam que a exclusão económica das populações locais pode alimentar tensões sociais numa província já marcada por insurgência armada, fragilidade institucional e elevados níveis de pobreza.
