A escassez crónica de água potável continua a marcar o quotidiano de centenas de famílias dos bairros de Tetene e Bili, na localidade de Mulotana, distrito de Boane, província de Maputo. O problema, que se arrasta há vários anos, está a agravar as condições de vida das comunidades e a comprometer o crescimento das zonas residenciais, numa altura em que a região regista uma rápida expansão populacional.
Logo nas primeiras horas da manhã, muitos moradores iniciam uma rotina que se tornou parte da sua sobrevivência: procurar água. Para algumas famílias, a única alternativa é recorrer a revendedores privados que transportam o líquido em camiões-cisterna e o comercializam a preços considerados elevados para a realidade económica local. O abastecimento de um depósito de mil litros custa cerca de 500 Meticais, valor que pode aumentar dependendo da distância e da procura.
Além dos custos, os residentes manifestam preocupação com a qualidade da água consumida, uma vez que o líquido é transportado em tanques móveis antes de ser descarregado nos reservatórios domésticos, sem que existam garantias claras sobre as condições sanitárias do processo.
Os moradores acusam o Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água (FIPAG) de não apresentar respostas concretas para uma situação que classificam como incompreensível. Segundo relatos recolhidos no local, existem vários quarteirões onde foram instaladas torneiras, contadores e efectuados contratos de fornecimento, mas a água nunca chegou às residências.
A indignação aumenta pelo facto de existir, nas proximidades do bairro de Bili, um reservatório de água que, alegadamente, serve de ponto de abastecimento para os próprios revendedores que posteriormente comercializam o recurso às comunidades locais. Para os residentes, a existência desta infraestrutura reforça as dúvidas sobre os motivos que impedem a distribuição regular através da rede canalizada.
“Se o problema estiver relacionado com algumas válvulas ou pequenas intervenções técnicas, nós estamos dispostos a ajudar. Gastamos entre 1.800 e 2.000 Meticais para contratar um camião e abastecer as nossas casas, enquanto temos um reservatório aqui mesmo no bairro. É uma situação lamentável”, lamentou Márcio Salomão, morador de Bili.
Em Tetene, onde novos empreendimentos habitacionais surgem com frequência, a falta de água é apontada como um dos principais entraves ao desenvolvimento local. Alfredo Sitoe, residente naquele bairro, afirma que muitas famílias enfrentam dificuldades para se fixarem na zona devido à insuficiência de serviços básicos.
“A expansão do bairro está a ser prejudicada. Somos obrigados a pagar 500 Meticais para encher um depósito de mil litros, um custo que pesa bastante no orçamento familiar”, explicou.
Para além da crise de abastecimento de água, as comunidades de Tetene e Bili enfrentam outros desafios que consideram prioritários. Entre as preocupações destacam-se os frequentes roubos em residências, assaltos na via pública, a inexistência de uma unidade sanitária próxima e o estado precário das estradas de acesso, factores que contribuem para o sentimento de abandono manifestado pelos moradores.
Especialistas em gestão de recursos hídricos defendem que o acesso à água potável constitui um direito fundamental e um dos pilares para o desenvolvimento sustentável das comunidades. A falta deste serviço afecta não apenas a saúde pública, mas também a educação, a produtividade económica e a qualidade de vida das populações.
Enquanto aguardam por soluções definitivas, os moradores de Mulotana continuam dependentes de um sistema informal de abastecimento, mais caro e menos seguro. Entre depósitos vazios, camiões-cisterna e promessas ainda por cumprir, cresce a expectativa de que as entidades responsáveis apresentem respostas concretas para um problema que, segundo a população, já tem “barbas brancas”.
