Egas Daniel defende equilíbrio entre ajustamento macroeconómico e protecção social


Num momento em que Moçambique procura recuperar de um período marcado por choques económicos, tensões sociais, eventos climáticos extremos e restrições financeiras, o economista moçambicano Egas Daniel considera que o país deve encontrar um ponto de equilíbrio entre as medidas de ajustamento macroeconómico recomendadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e a necessidade de proteger os grupos sociais mais vulneráveis. A posição foi apresentada numa entrevista concedida ao ISOCNews, numa altura em que o FMI voltou a alertar para os desafios que continuam a condicionar a economia nacional. 


O debate surge após a mais recente missão técnica do FMI a Maputo, que reconheceu sinais de recuperação gradual da actividade económica, mas alertou para a persistência de riscos significativos num contexto internacional cada vez mais incerto. Segundo a instituição, apesar da melhoria observada em alguns indicadores, o crescimento económico continua moderado e a economia permanece vulnerável a choques externos e internos. 


Para Egas Daniel, as recomendações do FMI devem ser encaradas como instrumentos para reforçar a estabilidade económica, mas sem ignorar a realidade social do país. O economista entende que a consolidação fiscal, o controlo da inflação e a gestão prudente das finanças públicas são fundamentais para restaurar a confiança dos investidores e garantir sustentabilidade financeira. Contudo, adverte que qualquer processo de ajustamento deve ser acompanhado por mecanismos de protecção social capazes de mitigar os impactos sobre as famílias de menor rendimento.


A preocupação do economista ganha relevância num cenário em que Moçambique continua a enfrentar desafios estruturais profundos. Relatórios recentes apontam para um crescimento económico ainda frágil, pressões sobre as contas públicas, escassez de divisas em determinados períodos e uma forte dependência de factores externos, incluindo os preços internacionais das commodities e o ritmo da economia global. 


Nos últimos meses, Egas Daniel tem vindo a alertar para a necessidade de reformas estruturais que permitam aumentar a produtividade, diversificar a economia e fortalecer o sector privado. Durante uma intervenção no EU Business Network 2026, realizado em Maputo, o economista afirmou que a recuperação económica permanece lenta devido aos efeitos acumulados de choques climáticos, tensões sociais e constrangimentos financeiros que afectaram o país nos últimos anos. 


Na entrevista ao ISOCNews, Daniel sublinha que o desafio não está apenas em equilibrar as contas públicas, mas também em garantir que o crescimento económico seja inclusivo. Para o especialista, a criação de emprego, o apoio às pequenas e médias empresas, o investimento na agricultura e a melhoria dos serviços públicos devem caminhar lado a lado com as reformas macroeconómicas.


O FMI tem defendido medidas como maior disciplina fiscal, reformas estruturais e uma gestão cambial mais flexível para reforçar a resiliência da economia moçambicana. Embora reconheça a importância destas recomendações, Egas Daniel considera que o sucesso das mesmas dependerá da capacidade do Governo de assegurar que os custos do ajustamento não recaiam desproporcionalmente sobre os cidadãos mais pobres. 


As perspectivas para os próximos anos apontam para uma recuperação gradual da economia, sustentada por reformas económicas, melhoria do ambiente de negócios e pela expectativa de retoma de grandes projectos de investimento. Ainda assim, especialistas e organismos internacionais convergem na avaliação de que a estabilidade política, a confiança dos investidores e a implementação consistente das reformas serão factores determinantes para transformar a recuperação económica em crescimento sustentável e inclusivo. 


Num país onde milhões de cidadãos ainda enfrentam dificuldades económicas, a mensagem de Egas Daniel é clara: a estabilidade macroeconómica é necessária, mas só terá verdadeiro significado se for acompanhada pela melhoria efectiva das condições de vida da população. O desafio de Moçambique, defende o economista, será conseguir crescer sem deixar ninguém para trás.

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