QUANDO OS MAMBINHAS DECIDIRAM ESCREVER A PRÓPRIA HISTÓRIA


Há dias em que um país olha para trás.

E há noites em que uma nova geração olha para a frente.

Enquanto Moçambique homenageava aqueles que defenderam a pátria e lutaram pela independência nacional, na Arena Lalgy havia uma outra batalha. Mais jovem, mais veloz, feita de chuteiras, suor e sonhos.

De um lado, a Namíbia.

Do outro, os Mambinhas.

E entre os dois, uma história que precisava de ser reescrita.

A Namíbia já tinha deixado uma ferida aberta. No encontro anterior, um 1-0 tinha sido suficiente para silenciar os moçambicanos. Desta vez, porém, Luís Guerreiro levou para o campo uma equipa que parecia ter entendido uma coisa simples: algumas respostas não se dão com palavras.

Dão-se com futebol.

A bola começou a rolar e, durante alguns minutos, a Namíbia parecia querer lembrar que não estava ali para assistir à festa de ninguém. Mas aos 14 minutos surgiu Martinho Começar.

Começar.

Até o apelido parecia ter sido escolhido para aquela noite.

Foi ele quem começou a escrever a nova história.

Golo de Moçambique.

1-0.

Aquele resultado, que dias antes tinha servido para celebrar a Namíbia, agora estava vestido de vermelho e verde. Só que desta vez não era o ponto final. Era apenas a primeira linha.

Os Mambinhas perceberam isso.

A Namíbia também.

E a primeira parte terminou com Moçambique na frente.

No intervalo, os dois bancos certamente procuraram respostas. Porque 1-0 é uma vantagem curta, uma daquelas que deixam o coração do adepto a trabalhar mais do que devia.

Mas havia uma diferença naquela noite.

Os Mambinhas não pareciam interessados em viver perigosamente.

Aos 56 minutos, Diogo Pelembe apareceu para marcar o segundo.

2-0.

Agora já não era apenas uma resposta.

Era uma declaração.

A Namíbia precisava de correr atrás do resultado. Moçambique, pelo contrário, começava a correr atrás de algo maior: uma noite para recordar.

E quando uma equipa começa a acreditar, o jogo muda de rosto.

A Arena Lalgy já não assistia simplesmente a uma partida da COSAFA. Assistia a uma geração a descobrir que também pode ocupar o seu espaço na história do futebol moçambicano.

Mas ainda faltava uma assinatura.

Aos 79 minutos, o camisola 24 apareceu.

Terceiro golo.

3-0.

E naquele momento ficou claro que a noite não pertencia à Namíbia.

Pertencia aos Mambinhas.

Três golos.

Nenhum sofrido.

E uma resposta que não precisou de entrevistas, conferências de imprensa ou grandes discursos.

Foi dada com a bola.

É curioso como o futebol consegue transformar noventa minutos numa espécie de espelho de um país.

Moçambique celebrava a memória dos que lutaram pela independência e, na Arena Lalgy, jovens jogadores lembravam que cada geração também tem a responsabilidade de construir a sua própria história.

Os heróis de ontem defenderam a pátria.

Os Mambinhas, naquela noite, defenderam a camisola.

E fizeram-no com futebol.

Martinho Começar abriu a porta.

Diogo Pelembe empurrou-a ainda mais.

O camisola 24 fechou a noite.

3-0.

A Namíbia ficou pelo caminho, enquanto os Mambinhas deram mais um passo rumo à fase final da Taça COSAFA Sub-20.

Mas talvez o mais importante não esteja apenas no resultado.

Está na mensagem.

Uma geração está a chegar.

E quando ela entra em campo com coragem, disciplina e vontade de vencer, talvez seja altura de prestar atenção.

Porque a próxima página da história do futebol moçambicano pode já estar a ser escrita.

E, desta vez, os Mambinhas querem segurar a caneta.

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