A crise interna na Renamo ganhou novos contornos esta semana, com um grupo de membros, deputados da Assembleia da República e antigos guerrilheiros, que se apresenta como Comissão de Gestão, a avançar para uma ofensiva política e judicial contra o presidente do partido, . As acusações vão desde alegada gestão financeira danosa até abuso de poder e quebra de confiança na condução dos destinos da maior força política da oposição moçambicana.
O mais recente episódio teve lugar na cidade de Quelimane, província da Zambézia, onde o grupo realizou um comício popular destinado a explicar aos membros e simpatizantes as razões que motivaram a apresentação de uma denúncia formal junto da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Perante centenas de participantes, os membros da comissão defenderam que a actual liderança da Renamo se afastou dos princípios e normas internas estabelecidos durante a presidência do falecido líder histórico da organização, .
Um dos rostos mais visíveis do movimento, António Muchanga, afirmou que a iniciativa de mobilização começou na região centro do país e será posteriormente alargada às regiões norte e sul, numa tentativa de sensibilizar os membros sobre aquilo que considera serem irregularidades graves na gestão partidária.
“Nós exigimos que Ossufo Momade cumpra os estatutos aprovados durante a liderança de Afonso Dhlakama e não regras que ele próprio terá introduzido em 2019”, declarou Muchanga durante o encontro.
Acusações centram-se na gestão financeira
No centro das divergências está a alegada falta de transparência na administração dos recursos financeiros da Renamo. Os denunciantes afirmam que o partido tem recebido regularmente verbas provenientes do Orçamento do Estado, para além de quotas dos membros, contribuições internas e apoios de parceiros e doadores, sem que existam relatórios financeiros públicos ou prestação regular de contas aos órgãos competentes.
Segundo a queixa submetida ao Ministério Público, a direcção liderada por Ossufo Momade não terá apresentado balancetes, relatórios financeiros detalhados, auditorias independentes ou outros instrumentos de fiscalização exigidos pelos princípios de boa governação e transparência.
Os membros que subscrevem a denúncia sustentam que, enquanto partido com assento parlamentar, a Renamo está legalmente obrigada a assegurar mecanismos claros de controlo e fiscalização da utilização dos recursos financeiros recebidos.
Assinaturas entregues à Procuradoria
Na segunda-feira, o grupo dirigiu-se à Procuradoria-Geral da República para formalizar a denúncia, acompanhada por assinaturas recolhidas junto de membros e simpatizantes da formação política.
À saída da instituição, Edgar Silva, membro da Renamo e um dos representantes dos denunciantes, afirmou que a base do partido desconhece o destino dos recursos financeiros arrecadados nos últimos anos.
“Sabemos que existe dinheiro proveniente do financiamento público, das cotizações dos membros e de doações externas. Contudo, nunca tivemos acesso às contas nem sabemos como esses fundos foram utilizados”, afirmou.
Silva foi mais longe, alegando que a organização enfrenta actualmente dificuldades operacionais significativas.
“Temos reuniões extraordinárias convocadas que nunca chegam a realizar-se. Pedimos o balanço financeiro dos últimos 24 meses e esclarecimentos sobre fundos destinados à campanha eleitoral. Falamos de valores que rondariam os 42 milhões de meticais, mas não sabemos como foram aplicados”, denunciou.
Pedido de auditoria e investigação
Entre as exigências apresentadas ao Ministério Público, os requerentes defendem a realização de diligências investigativas e fiscalizadoras à gestão financeira do partido, incluindo uma eventual auditoria financeira e patrimonial.
O grupo solicita igualmente que sejam apuradas eventuais responsabilidades civis, disciplinares ou criminais relacionadas com a alegada falta de prestação de contas.
Os denunciantes pedem ainda que Ossufo Momade apresente, com carácter de urgência, os relatórios financeiros referentes aos anos de 2024 e 2025, incluindo informações detalhadas sobre receitas, despesas, saldos bancários e demais movimentos contabilísticos associados às verbas recebidas pelo partido.
Futuro da Renamo volta ao centro do debate
A nova investida judicial surge num momento particularmente sensível para a Renamo, que nos últimos anos tem enfrentado sucessivos desafios internos relacionados com liderança, reorganização partidária e desempenho eleitoral.
Enquanto a Procuradoria-Geral da República analisa a denúncia submetida, cresce a expectativa em torno da reacção oficial da direcção do partido às acusações apresentadas pelos seus próprios membros.
A evolução deste processo poderá ter impacto significativo no futuro político da Renamo, numa altura em que vários sectores internos defendem reformas profundas na gestão e no funcionamento da organização.
Por enquanto, a disputa interna continua a ganhar dimensão pública, expondo divisões cada vez mais visíveis numa das mais influentes formações políticas da história recente de Moçambique.





